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Eu, Criatura – Ray’s POV

Por Ray

Vocês sabem, porque o Toiço disse, que estamos alegremente nos sentindo muito inteligentes apreciando contos para a Devir.

O que vocês – que inscreveram contos, ou meramente estão lendo de curiosos- não imaginam ao começar a ler este post, é que pela primeira vez na eternidade, o Daniel é o menor dos seus problemas.  Em matéria de observar criticamente algo, perto de mim o resto da matilha é um bando de filhotes de coelhos.

Mas comecemos pelo príncipio, como diz a máxima.

“-Daniel, é você?  -Quieto, Toiço.”

Escritores X Contadores de Histórias

Eu fabriquei para uso próprio uma distinção entre os autores cujas obras me vêm às mãos após discutir com a Ana e o Toiço se a J.K. Rowling era ou não uma boa escritora. De fato,  no meu caderno existe a categoria Contador de Histórias e, adivinhe só, Escritor. São duas variáveis: enredo e domínio da linguagem. Se a qualidade da primeira supera a da segunda, é um Contador, do contrário, é um escritor. Naturalmente, como eu estou me reportando a textos que considero bons, não há juízo de valor nessa diferenciação.

Você vê, um Escritor pode usar qualquer enredo.  Pode começar contando a história de uma vaquinha mu que descia a estrada e encontrou um bebê,  ou de um cara que acha que foi traído pela mulher, ou que efetivamene foi, ou de um menino fazendo zona com as outras crianças da vila. Você vê, o resumo do enredo não é particularmente genial, mas a maneira com que ele é trabalhado a transforma de gata-borralheiras a cânon da literatura.

Um Contador de Histórias, por outro lado,tem uma idéia realmente boa, inédita, cativante e rica. Por mim ele pode escrever ok, pode escrever bem, ou pode ser ofendido por mim a cada página (eu não recomendaria a ninguém uma leitura minha comentada do Terceiro Deus, mind you), isso não é importante.  O que importa é que o quê ele escreve é admirável.

É a diferença entre o quê e como, bem como entre um gênio e um artista.

Eu, Criatura

Para mim, o Eu, Criatura sempre foi uma questão de gênio. Boas idéias e boas histórias fazem o RPG, não? E daí se tem alguma coisa contrária ao considerado uso coerente da língua escrita?

Qual não foi a minha surpresa quando eu encontrei textos melhores e idéias piores do que eu esperava.

Dos que eu li até o momento, raríssimos são ruins. Mas poucos são originais. Muitos não saíram do clichê. Até me sinto um tanto, como diriam na old school, verbena de tanta lua e tanto sangue.

Evidentemente, há aqueles que eu adorei, e adorei e eu mesma mandaria um prêmio, porque foi muito divertido ler.  Mas, em geral,  eu imaginei sempre o momento em que o autor olha para sua obra se perguntando: “Existe a chance de alguém ter mandado uma história igual a minha?”. A probabilidade do “sim” é inversa à de ser um enredo interessantíssimo.
E quanto menos interessante for, mais há que se compensar contando-a de forma excepcional. O que eu considero muito, muito mais difícil.

Eu, como parte da banca de jurados, admiro a coragem de todos que mandaram histórias. Mas não deixo de achar que alguns poderiam ter feito uso melhor dessa oportunidade. Digo, são ou não jogadores de RPG, mestres da criatividade, originais, improviso e pá?

Para terminar, umas observações constantes enquanto os lia (todas as presentes aqui foram pensadas vezes o suficiente para ficarem bem gravadas na memória):

-”Tudo que orbita em torno de uma descrição sexual deve ser feito, como já dizia André Carneiro, com muita perícia e astúcia. O autor tem que saber precisamente que tipo de sensação quer provocar no leitor, e conseguir. Aquém disso a torna frívola, e além, vulgar. Em ambos os casos, desnecessária.

-”Estereótipos fisico/estéticos são cansativos.”

-“Eu tenho certeza que a vida de um personagem do mundo das trevas , qualquer seja a raça, é um pouco mais que um único ato. Só um pouquinho mais, ao menos.”

-”Qual é a nóia com os Gangrel?”

-”Os novos Magos são os velhos Changeling.”

-”Gente que gosta de vampiro é muito esquisita. Ops, não devo pensar dessa forma. Reformulando mentalmente, gente que gosta de vampiro é muito especial. ” (Just kidding, folks).

-”Eu não vou ser capaz nem de ouvir Blue Moon depois de terminar todos.”

-”Povo, lembrem do Janela Secreta, aquele filme estranho do Johnny Deep. É o final que realmente importa.”

-”Sobre que bicho sobrenatural é esse conto, afinal?”

All in all, amor de mula, o de sempre.  Se você se sentir ofendido, se console pensando no que o Cornwell não sofre na minha mão.

Compare Preços de: Games, Dragon Fable, MMO, RPG no JáCotei.

8 Comentários para “Eu, Criatura – Ray’s POV”

  1. 1
    Felipe Velloso:

    Cara, está bem complicado mesmo julgar esses contos… Estou bastante atolado nisso. Fora que são praticamente 100 contos… rs

  2. 2
    Thiago:

    Ray, não acredito nessa de gênio. Para mim existe trabalho e trabalho sempre. Mas este critério que tu adotas é um tanto interessante. J.K. Rowling é uma ótima contadora de histórias. Consegue trazer coisas/fatos que intrigam e criam um clima deveras envolvente. Mas peca muito quando desenvolve algumas coisas, abusa de lugares-comuns da escrita que irritam o leitor (tive vontade de jogar o sexto livro na parede várias vezes). O propósito dela foi alcançado, mas ela está longe de ser uma grande escritora.
    Essa é a parte mais difícil: conseguir mesclar uma ótima idéia a um estilo de escrita, formar um simbionte. Isso pouca gente faz.

    Você já leu “Contraponto” do Huxley? Acho que este livro é um grande exemplo. Ele teve uma ótima idéia. Intercalar pessoas, situações e acontecimentos, fazer com que se entrelaçem quase que imperceptivelmente. E esta idéia se reflete na escrita: o estilo de linguagem se mescla à intenção, ao enredo, tornando-os indissociáveis. Em suma, é a junção do grande contador de histórias, com um grande escritor.

  3. 3
    Vinicius:

    pra mim existe literatura que é boa, independente de você gostar ou não.

    e sobre as “menos que boas”, você tem o direito de gostar ou não.

    e sobre as ruins, melhor não sair falando porque sempre tem alguém que gosta e vai acabar se ofendendo.

  4. 4
    Cobbi:

    Oi Ray,

    Entendo (e, de antemão antecipo, me incluo) na distinção storyteller vs. escritor. Embora nos conheçamos, não tivemos tempo de jogar RPG juntos (mas a sinuca foi boa, falaí). Sou daqueles doidos que sobe até em cadeira pra interpretar monstro e acho fundamental a habilidade de storytelling em qualquer pessoa pretensa a comunicação (escritor, desenhista, cineasta, roteirista), deal?

    No entanto, coisa rara de acontecer em postagem tua, não consegui pegar tua opinião e/ou juízo de valor a respeito dessas duas categorias. Quando eu tava quase lá, tu me veio com:

    É a diferença entre o quê e como, bem como entre um gênio e um artista.

    Beleza, uma coisa é inventar uma história maneira e outra coisa é inventar um jeito maneiro de contar uma história, mas um cara num pode ser artista e gênio ao mesmo tempo?

    ^~

  5. 5
    Ricardo Foureaux:

    Amigos, o assassinato ocorrido em Ouro Preto que a mídia adora culpar o “RPG” foi a julgamento hoje. Infelizmente, novamente a mídia atacou o jogo como se ele fosse responsável pela morte da garota. Na Rede Alterosa, a afiliada do SBT em MG, os repórteres deram ênfase no que eles chamaram “o crime do RPG”. Como isso ofende muita gente, principalmente nós, jogadores, fiz um e-mail para a emissora. Gostaria de apresentá-lo aqui, e também sugerir que, caso alguém também se sinta indignado, mande uma mensagem para lá no site:

    http://www.alterosa.com.br/html/capa_faleconosco/capa_faleconosco.shtml

    Aqui vai o e-mail:

    Sr. Leopoldo Siqueira e amigos da Alterosa,

    Acompanho diariamente o programa “Alterosa Esporte”, mas na data de hoje ouvi você dizer uma coisa que me fez repensar se realmente vale a pena ver um programa com um comunicador irresponsável em seu comando. Sei que errar é humano, mas no papel de vocês, formadores de opinião, esse tipo de erro causa estragos em muitas vidas. Falo do momento em que você falou sobre a matéria do crime em Ouro Preto, chamando-o de “Crime do RPG”.
    Leopoldo, você deveria ter um maior cuidado com as coisas que diz ao vivo. O RPG é um jogo, que tem como objetivo divertir pessoas. No RPG, não há mortes de verdade, mas de faz-de-conta, como tem em jogos infantis como o de polícia e ladrão. O RPG não cria bandidos. Se isso fosse verdade, os EUA seria uma nação de criminosos, porque vinte milhões de pessoas jogam lá. Quando você diz “crime do RPG”, você ofende todos os praticantes desse hobby no Brasil, de uma forma equivocada. Não sei se aquelas pessoas são realmente culpadas daquele crime, mas se forem, tomara que sejam condenadas. Porém, você não pode “generalizar” um hobby, tornando seus praticantes um bando de criminosos.
    A generalização é um erro, comum das pessoas pouco informadas. Se você um acerto, eu poderia dizer que todo jornalista é um assassino, devido ao crime cometido há pouco tempo pelo jornalista da Folha de São Paulo. Portanto, sr. Leopoldo Siqueira, por favor se informe sobre o RPG antes de fazer esse tipo de insinuação. Você poderia até fazer um “desafio da bancada” com o jogo, ao invés de denegri-lo. Meu sogro, ao ouvir você falando, me disse “Ricardo, pára com esse jogo que é errado”. Devido ao que você falou, talvez até a família da minha esposa, assim como a família de diversos rpgistas mineiros, considere os jogadores como pessoas “erradas”.
    Espero que leia pelo menos parte dessa mensagem no ar. Se esse programa realmente é democrático, a democracia só existe quando as pessoas são respeitadas. Sem respeito, ela padece.

    Ricardo Gontijo

  6. 6
    Ray:

    Felipe, eu inclusive não pude deixar de perceber que, quando a maré está boa, é muito tranquilo julgar os contos, inclusive tendo aquela de “vou ler só mais um”. O que exaure é ler a mesma coisa denovo e denovo novamente. :P

    Thiago, eu devo confessar que a falta de proficiência na escrita de autores como a Rowling não me incomoda muito. Eventualmente posso até preferir alguém que escreva com simplicidade, mas contando sua história bem, do que alguém que tente perfumar tanto que fica com cheiro de bode.
    Na verdade, imagino que leve anos de estudo para se ter um domínio de literatura e escrita capaz de criar algo novo e bom. Não exijo isso de alguém que queira escrever uma história, só que ele a trabalhe bem, tenha coerência interna, enfim, funcione.

    E Cobbi, naturalmente que elas não são autoexcludentes, vide, sei lá, Poe. Mas a questão é que em poucos casos não se pode apontar se o que valoriza a obra é o seu enredo ou a sua técnica. Mas ele estar em uma categoria não implica inaptidão na outra.
    E você não conseguiu pegar um juízo de valor sobre as categorias porque de fato não há nenhum; cada uma me parece mais interessante conforme o momento. =)

  7. 7
    salvaterra:

    só mandei conto de vampiro por não ter jogado ainda outros cenários.
    queria ter escrito sobre mago :(
    quanto ao cheiro de bode: há que se lembrar que escritores virtuosos escrevem obras com diversas camadas intelectuais. alguns se preocupam com pseudo-leitores onanistas e botam lá uma camadinha fácil e glamorosa, facilmente digerida, à frente de suas reais intensões literárias. outros tratam de afastar burros leitores com o cheiro de bode, ocultando todo o ouro de uma verdadeira odisséia nas estratoferas de um texto difícil. é claro que esses não vão encher o * de dinheiro como a autora do parry hotter, já que a maioria dos compradores de livros são do tipo que entendem só depois do desenho.
    contudo, concordo que os escritores mais apreciados são os mais criativos, que sabem escrever para todas as camadas de compreensão da atmosfera humana.
    eu mesmo me considero do tipo tapado, e só entendo dois palmos à frente do meu nariz.

  8. 8
    Fabio 'Sooner' Macedo:

    Isso é que dá passar tanto tempo sem ler A Matilha…
    Ray, é sempre bom ver que não fui só eu (e o Felipe) que notou a consistência estilística, mas a falta de idéias.

    E eu JURO, não tinha lido o seu post antes de comentar sobre o Concurso em
    http://d3system.com.br/wodbrasilnews2009061/
    e
    http://d3system.com.br/wodbrasilnews20090624/

    Só que você argumentou bem melhor do que eu, as usual. Kudos!

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